Os Segredos de Tomas Suchanek

24 agosto 2012   //   Artigos

Saiba porque admiramos tanto os pilotos da República Tcheca – Conheça os segredos de Tomas Suchanek

Qualquer piloto que tenha prestado atenção nos resultados das competições já viu o nome de Tomas Suchanek. Ele ganhou os últimos 3 campeonatos mundiais e está liderando o quarto. É também o atual campeão mundial de trike. Com 32 competições ganhas, ele é um verdadeiro fenômeno!

Tomas competiu em nosso nacional no último ano em Chelan, Washington. Ganhou facilmente. Eu estive voando contra ele em outras competições e senti a força de seus vórtices me deixando para trás. Porém, em Chelan, estava nosso esquadrão com os melhores pilotos dos Estados Unidos, sacudindo as cabeças atemorizados.

Em um dos dias quando as condições estavam bem fracas, na decolagem, Tomas girou várias vezes em uma descendente e por baixo de todos subiu novamente, muito rápido, ficando acima de todos que esperavam as condições melhorarem.

Um outro dia, decolou tarde e chegou no Goal uma hora antes que Dave Sharp, o único que também finalizou a prova do dia, enquanto o vento de frente e as térmicas ruins devoravam o restante de nós.

Estas histórias se seguem, porém, vocês viram uma pequena amostra!

Depois deste encontro, resolvi descobrir seus segredos.

Tomas é simpático e disposto à discutir tudo o que sabe, ao menos, aquilo que pode colocar em palavras. Tive a oportunidade de o atrapalhar durante as competições do último inverno na Austrália. Nestas entrevistas, criamos diversos artigos para a revista Cross Country.

Mas do que duplicar todo este material aqui, o deixaremos bem conciso e dirigido aos novos pilotos Norte Americanos e aos vôos que fazemos aqui. Tomas tem algumas opiniões nesta matéria que sem dúvida, ajudarão a melhorar muitos pilotos.

Tomas, poderia nos contar sobre seus antecedentes que se relacionam ao crescimento de suas habilidades?

Eu comecei voando aeromodelos na Checoslovaquia, onde nasci, quando tinha apenas 6 anos e asas delta aos 15 anos, em 1980.

Os aeromodelos são uma ótima ferramenta para aprender micrometeorologia, já que podem voar mais baixo do que uma asa delta e são muito sensíveis no ar. Eu construí meus próprios aeromodelos, por sequência então, construí minhas próprias asas delta aos sete ou oito anos. Não podíamos comprar asas novas e tínhamos que fabricar uma grande parte das peças.

Os outros problemas que tive que enfrentar, que no final resultou em benefício, foram as pequenas colinas que tínhamos acesso sem a necessidade de carros, pois não dispúnhamos de nenhum! Isto significa que tínhamos que carregar as asas nas costas até o topo da pequena colina. Desta maneira, aprendemos a entender as condições muito bem, movidos pela necessidade. Frequentemente havia por ali, somente uma meia hora de ciclo voável e um vento para decolármos de apenas poucos minutos. Desenvolvemos nossas habilidades de voar lift e térmica aos extremos, já que a subida era árdua e tínhamos apenas uma chance.

Mais tarde estudei aerodinâmica na universidade e cheguei a completar o Mestrado em engenharia aeroespacial. Porém, meus estudos independentes foram tão importantes quanto os meus estudos formais. No inverno, devorava livros sobre meteorologia e conhecimentos técnicos de vôo, tratando de colocar as idéias em prática nas temporadas de vôo. No inverno seguinte relia os livros e aprendia novas técnicas baseadas nas experiências recentes de vôo da temporada anterior. Devo dizer que penso que este é um dos caminhos mais necessários para ser um ótimo piloto. Não podemos experimentar e entender tudo nós mesmos, os livros e artigos ajudam enormemente na velocidade de entendimento e aprendizagem.

Quais as qualidades físicas que você possui, que o ajudam a ser um excelente piloto?

Estou em boa forma para o vôo – vôo ao menos 300 hs por ano – o qual me permitem voar uma asa maior do que a ideal e mais segura para mim. Isto me ajuda a ter uma taxa mais baixa de descida.

Me dei conta há alguns anos atrás, que me saía bem nos primeiros dias de campeonato e depois ia piorando aos poucos. Compreendi que a fadiga era um dos fatores, então, comecei a me exercitar, principalmente de bicicleta e comprovei que isto ajuda. A outra única qualidade física que acho que me dá uma tremenda vantagem, é o alcance da minha visão. Possuo uma visão melhor do que a média (20-20) e acho que posso ver asas, pássaros, nuvens e outros sinais de térmicas talvez melhor que a maioria dos pilotos. Isto é tranquilamente é um grande benefício em vôos de Cross Country.

Se você me permite trocar de assunto “habilidades na térmica”, Tomas, notei que possui uma misteriosa habilidade para subir no meio de um grupo de asas até o mais alto ponto.

Minha opinião é que ganhar altura o mais eficiente e efetivamente é a parte mais importnte do vôo em competições. Por esta razão me concentrei em desenvolver estas habilidades. Acho que não sou um piloto nato como Alain Chauvert, Manfred Ruhmer ou Larry Tudor. Eles parecem possuir um dom nato, que os permitem visualizar e voar nas melhores áreas da térmica e permanecerem nela! Eu tive que trabalhar duro para desenvolver habilidades lógicas para voar minhas térmicas, porém agora, acho que tenho as técnicas e modelos na minha cabeça para fazer isto relativamente bem.

A maioria dos pilotos podem fazer círculos no miolo da térmica, porém, poucos tem cuidado em se concentrar para fazerem cada círculo tão eficiente quanto possível. Os miolos estão sempre em movimento, mesmo térmicas suaves não permanecem estáticas. Eu checo meu progresso a cada 360º e faço ajustes onde necessário. Sempre trato de formar uma imagem em minha cabeça de onde está o miolo da térmica. Sempre trabalho para girar perfeitamente no centro do núcleo e de forma tão lenta quanto possível, logicamente com certa margem de segurança.

Em térmicas turbulentas, quando se tem tráfego ou perto das montanhas, não posso voar tão lentamente, porém nestas situações, vejo onde posso diminuir a velocidade com pequenos meio giros. A cada pequena oportunidade que podemos extrair do vôo, aumentam minhas possibilidades.

Quando os núcleos das térmicas estão muito quebrados é mais importante avaliar cada círculo. A presença de outros pilotos na térmica é muito importante para esta avaliação, já que ajudam a identificar onde as ascendentes estão melhores.

Se um piloto rapidamente cai, eu giro fechado para evitar aquela trajetória. As vezes pequenas ascendentes se elevam através da térmica e é possível girar fechado para ganhar altura entre os outros pilotos que se encontram nela. naturalmente se a térmica está muito cheia e confusa, não se pode fazer isto. Porém frequentemente as térmicas não são estáveis e é possível ganharmos altura fora do trafego nos concentrando em maximizar cada círculo.

Eu aborreço os pilotos que giram muito abertos nas térmicas (risos). Eles atrapalham todos, pois ninguém consegue voar no melhor do miolo sem que ocorra um conflito! Para isto, eu uso um truque: vôo bem atrás do piloto que está voando aberto, logo que sinto um golpe de ascendente, giro rapidamente mais fechado, por dentro, e logo fico acima e livre dele! Eu tendo a voar de modo meio agressivo nos pelotões de competição, até mais do que o Manfred disse, mas, este é meu estilo. Vôo atento as trajetórias dos pilotos e espero a oportunidade para sempre alterar minha trajetória para onde posso maximizar minha subida com segurança.

Sei que tem algumas idéias referentes a natureza das térmicas e de como se comportam. Poderia nos falar sobre isto?

Sim, eu penso que é muito importante ter uma imagem da forma das térmicas em sua cabeça, para explorá-las ao máximo.

Por exemplo: esta térmica é uma coluna? É uma bolha de vida curta? É uma bolha de múltiplos núcleos? Esta inclinada? É larga ou estreita? e assim por diante.

Nós sabemos que as térmicas são grandes massas com muitas toneladas e que possuem certa inércia. Isto significa que não se movem livremente com o vento como uma bola de sabão, mas sim, atuam mais parecido a um balão de ar quente amarrado. O ar flui ao redor e sobre a térmica, deformando-a um pouco. A imagem que tenho de uma térmica com o vento, inclui um incremento de ascendentes e descendentes nos dois lados: barlavento e sotavento, muito parecido com o fluxo em uma rocha colocada em uma corrente de água. Isto se deve a ascendente mecânica na parte frontal e a convergência na parte de traseira. Para fazer uso desta característica eu trato de fazer meu círculo na térmica de tal maneira, como se estivesse cavalgando sobre a crista deste anel externo, onde o ar sobe mais, admitindo que somente o centro é muito pequeno para um ganho eficiente.

Nesta situação o lado do barlavento é mais crítico devido a sua descendente mais forte na periferia da térmica. Frequentemente vejo pilotos voarem nesta borda e perderem alguns bons metros antes de voltar a achar o miolo. Isto significa que coloco em jogo toda a minha sensibilidade e concentração. Se tem algum segredo que eu possua para voar térmicas, é este modelo de térmica no vento e minha habilidade de surfar sobre esta crista.

Ouvimos relatos de que recentemente você ganhou alguns campeonatos sem usar nenhum instrumento. Como fez isto?

Bem, eu vendo meu equipamento frequentemente. As vezes uso uma asa diferente em cada campeonato, especialmente se estou desenvolvendo um protótipo. Neste caso, o último verão, vendi meu vario. Tudo o que eu tinha era um relógio Avocet para usar como altímetro. Entrei em um campeonato na Europa e ganhei sem vário. Os pilotos não acreditavam, porém, considerando-se que gastei muitos anos voando sem vário (pois não tínhamos como ter um), isto não deve ser surpreendente.

Eu vôo principalmente pela sensibilidade, uso o variômetro apenas para confirmar o que estou sentindo, porém, isto não é realmente necessário para a maioria dos casos. Abaixo dos 500 metros, posso visivelmente detectar minha ascensão. Acima desta altura, eu gosto de ter um bom altímetro, que segundo penso, é o instrumento mais útil.

Porém com a minha experiência sem instrumentos e com outros pilotos no céu, posso ser capaz de voar térmicas e até ganhar. Desenvolver uma boa percepção sensitiva no ar, desligando os instrumentos, é uma prática muito útil.

Podemos desviar nossa atenção para o vôo de cross country? Parte dos segredos para o vôo de distância, é encontrar a próxima térmica. Tem alguma perspicácia para nos contar sobre esta arte?

Essencialmente uso os sinais clássicos como aqueles que você comenta em seu livro Performance Flying. Acima da metade da altura das nuvens (aproximadamente), olho os sinais nas nuvens. Abaixo desta mesma metade olho os sinais de possíveis gatilhos de térmicas no solo. De qualquer modo, estou sempre olhando tanto para cima como para baixo, mas quanto mais alto estou, mais olho para as nuvens e vice-versa.

Eu estou observando as probabilidades e constantemente trato de aplicar a teoria que conheço.

Eu olho a melhor combinação de formações e condições que resultem a mais alta probabilidade de produção de térmicas.

O que particularmente você olha com relação as nuvens?

Bem, novamente. Eu olho todos os sinais clássicos como definição das bordas, desenvolvimento vertical, bases planas e escuras, lado a barlavento, lado do sol e etc… cada nuvem conta uma história que podemos aprender a ler. A parte superior nos indica a direção do vento e o vento pode afetar a formação da ascendente em relação a nuvem. Eu olho principalmente o lado do barlavento primeiro. Busco uma forma delineada e a área de maior crescimento.

É muito importante caracterizar o estado da nuvem. Alguns dias as ascendentes são fracas e não duram muito, porém as nuvens resistem devido ao ar estar úmido no nível da nuvem. Outros dias as ascendentes podem durar um longo período, porém as nuvens desaparecem rapidamente devido ao ar estar seco. Em dias úmidos as nuvens são menos confiáveis e em dias secos fica mais difícil, já que elas aparecem e desaparecem rapidamente. Causando um certo problema.

Usualmente todas as nuvens são similares em um determinado dia, portanto, eu observo e aprendo sobre o ciclo de vida da nuvem vigente neste dia. Então no ar, imagino uns três passos à frente. Sempre estou observando duas ou três possibilidades muito antes de chegar em baixo de uma nuvem.

Não existe um substituto para o conhecimento da meteorologia. Esta ajuda a compreender a natureza das nuvens, temperaturas e fluxos do ar. Por isso eu recomendo um livro Understanding the Sky.

Obrigado. Pode nos contar o que observa no solo?

Eu observo tudo o que possui grandes probabilidades de fabricar térmicas. Talvez a coisa mais importante que faço á constantemente ficar atento aos fluxos de ar em todos os níveis (este frequentemente não é o mesmo). Eu gasto horas navegando de barco, para observar a água fluir ao redor das rochas e troncos, pois isto me ajuda a visualizar o comportamento do vento sobre as colinas e montanhas. Sempre trato de imaginar o fluxo de vento. Isto me ajuda a voar em um local pela primeira vez e entendê-lo rapidamente. Ager (Espanha) é um local complicado por exemplo. Porém o lugar mais complicado que eu encontrei foi Fiesch (lugar onde se realizou o campeonato mundial de 1989 na Suiça). A maioria dos lugares são fáceis de se compreender, logicamente, as áreas planas são mais fáceis.

Para ser mais específico, se conheço a direção do vento, observo os lados a barlavento das colinas e linhas de árvores e os lados a sotavento de campos escuros, campos secos e praças de estacionamento. Também observo contrastes tais como áreas escuras e áreas verdes nas bordas das sombras das núvens. Naturalmente, observo cuidadosamente a presença de pássaros, dust devils, objetos voando e outros pilotos. Com o conhecimento do vento eu imagino o ângulo da térmica e me baseio nos gatilhos e sinais.

Outras potenciais fontes de térmicas ou gatilhos estão em zonas de convergência as quais podem ocorrer com a brisa marinha ou onde o ar escorre através de uma falésia ou dentro de um vale estreito. Aqui é onde minha minha visualização de fluxo é utilizada.

Pode nos dar algum exercício específico de entretenimento para nos ajudar a melhorar?

Sim. Como disse antes, acredito que o ganho de altura é a coisa mais importante em uma competição. Para o vôo de recreação também, já que o piloto que sobe melhor é usualmente quem permanece voando enquanto os outros estão pousando em dias difíceis. O caminho para praticar o vôo em térmica não é permanecer acima das outras asas, mas sim, descer em espiral e voltar a subir diversas vezes. Esta é especialmente uma boa prática quando outras asas estão ao redor já que permitem medir seu progresso.

Outra prática importante é voar contra o vento ou com vento cruzado. Se você sempre voa com vento de cauda quando voa cross coutry, é relativamente fácil e assim você não desenvolve tão bem as habilidades tais como leituras de nuvens, gatilhos e etc… Alguns vôos de cross country requerem voar algumas pernas com vento de frente e é mais importante praticar para conhecer como voar as nuvens em estado de sotavento. Também é importante aprender a ser paciente e conservar a altura necessária para voar com vento de frente.

Finalmente, eu aconselharia praticar ir a um ponto e voltar cada vez que voar, mesmo que seja uma curta distância em seu local de vôo. Desafie-se e melhorarás.

Deixe-me terminar com um relato de Toni Ranmauf (Austríaco) sobre algo que aconteceu há alguns anos atrás. Após decolar atrás de você no nacional da Austrália em Mt. Talbingo. Acreditou ser seu dia de sorte, logo estava com você em uma térmica de +6 m/s. Repentinamente ele olhou ao redor e você havia sumido! Logo que o achou, viu que você subia cerca de +9 m/s. Como fez isto?

Não me recordo os detalhes deste incidente, porém estou seguro que devo ter visto algum sinal de melhor ascendente. O mais provável é que tenha visto um pássaro subindo mais rápido que nós.

Um ponto importante que percebo, é que a maioria dos pilotos já relaxam achando que estão em uma ótima térmica. E eu permaneço consciente da necessidade de maximizar meu ganho de altura, observando ao redor sinais de uma ascendente melhor. Nunca estou satisfeito!

1. Suchánek Tomáš – Jičín, LS8

2. Krejčiřík Petr – Hranice, Ventus

3. Loužecký Pavel – Přibyslav, Ventus2

Tomas Suchanek hoje aprimora sua sabedoria nos campeonatos de Planadores da Classe Standard, ele voa um LS8 defendendo a bandeira da República Cheka, para variar vem liderando mundialmente a categoria!

Artigo publicado na revista Hang Gliding. Setembro 1996.
por Denis Pagen.

 

Fonte: DustDevil.com.br

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