Meteorologia – Capítulo 6 – Térmicas

Ascendente térmica

Uma térmica é uma corrente ascendente que nasce de uma diferença entre temperaturas e compõe-se geralmente de um ou vários centros de ascendência rodeados por zonas de descendentes compensatórias do movimento ascendente.

Este tipo de ascendente tem origem no maior aquecimento de certas zonas no solo, que por contato aquecem o ar envolvente tornando-o menos denso, forçando-o a subir sob a forma de uma coluna de ar ascendente, até que o calor se dissipe.

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O aproveitamento desta coluna de ar quente, faz-se em voltas de 360º consecutivas procurando permanecer sempre no seu interior, tentando manter-se na area ascendente (linhas verdes na imagem) subindo o mais alto possível.

O voo neste tipo de ascendente requer conhecimentos aprofundados e está em geral associado a dias e zonas de maior turbulência, que pode não ser adequado para pilotos pouco experientes. O Voo térmico deverá ser efetuado por pilotos que saibam diagnosticar as condições aceitáveis e reagir aos imprevistos.

Para que nos nossos voos possamos encontrar e centrar em uma térmica necessitamos entender como essas enormes colunas de ar ascendente se formam, assim como também aprender a identificar os diversos fatores que influenciam a formação das térmicas, bem como os seus diferentes estágios de desenvolvimento.

Em primeiro lugar, o sol atravessa a atmosfera sem aquecer o ar, sendo a energia do sol absorvida quase que totalmente pelo solo. O solo aquece e por transferência térmica aquece o ar que esta próximo à superfície, ou seja, o aquecimento do ar próximo ao solo dá origem às térmicas.

A realização de voos de distância livre normalmente está associado com a resposta à seguinte questão: “Onde está a próxima térmica?”. Se conseguirmos responder corretamente a esta questão pelo menos 90% das vezes seria muito bom. Esta é também a chave para que cada piloto de distância livre possa desenvolver e aperfeiçoar o seu sistema de compreensão das térmicas. Apenas assim será possível o piloto aprender com os seus sucessos e fracassos!

O objetivo principal é tentar desenvolver um sistema simples e ir melhorando conforme vamos adquirindo mais experiência e conhecimento de forma a obter melhores resultados. O modelo de previsão de térmicas pode ser dividido em duas partes: previsão de térmicas baseada na análise do solo e previsão de térmicas baseada na análise do céu. Tentaremos mais adiante explicar como se formam as térmicas no solo e como encontrá-las eficientemente.

Gatilhos (ou coletores)

Os gatilhos são conhecidos como áreas que potencialmente podem gerar térmicas, pois “coletam”(juntam) a energia do sol e soltam-na na forma de ar quente ou, como gostamos de chamar, térmicas. Estes gatilhos tendem a aquecer, à medida que o sol aquece o solo ao longo do dia, começando por soltar lentamente e consistentemente ciclos térmicos, seguindo-se mais tarde ao longo do dia a libertação de ciclos mais fortes. Quando conseguimos encontrar um bom gatilho, normalmente conseguimos manter-nos por cima dele á espera que um ciclo mais forte apareça. Por vezes quando estamos perto do solo esta pode ser a única hipótese disponível de nos mantermos em voo.

Os gatilhos estão intimamente ligados ao sol! Se não houver sol, então provavelmente não irá haver muito ar quente a se desprender do solo (com exceção de frentes frias e algumas massas de ar bastante instáveis). Quando procuramos algum gatilho potencial de térmicas devemos perguntar em primeiro lugar, “Há quanto tempo e qual o ângulo em que o sol tem aquecido aquele gatilho?” um gatilho perfeito estará aquecido pelo sol durante muitas horas.

O próximo fator que determina o aquecimento do ar é a superfície aquecida pelo sol. Basicamente, as superfícies secas produzem as melhores térmicas. Campos de cereais (trigo, milho, aveia, etc.) são excelentes fontes de gatilho principalmente quando no seu entorno há uma vegetação nativa. Essa vegetação tende a fazer um contraste de temperatura com as plantações. Terrenos rochosos também funcionam bem, mas levam mais tempo a aquecer.

O vento tende “atrapalhar” as térmicas, pois tende a misturar o ar de temperaturas diferente nos potenciais gatilhos, impedindo o ar de atingir as temperaturas ideais para se soltar do solo ou tornando algumas térmicas decentes em bolhas pequenas inaproveitáveis, especialmente junto do solo.

Uma linha árvores ao redor de um campo muito seco e com arbustos, conterá normalmente uma pequena bolsa de ar. Podemos experimentar a sensação de liberação de térmicas apenas caminhando por campos ensolarados, secos e protegidos pelo vento, nestes podemos constatar que a temperatura é elevada.

Quanto mais protegida e ensolarada estiver a área do gatilho, mais quente estará e melhores serão as possibilidades de um piloto conseguir subir numa térmica junto a esse local.

Isto significa por vezes que as melhores térmicas se encontram localizadas em encostas expostas ao sol e sotaventadas (no rotor); isto não é um problema se estivermos altos e voarmos por cima dessas encostas, mas temos de considerar a hipótese de existência de fortes rotores se estivermos a baixa altitude.

Muitos pilotos acreditam que zonas pavimentadas, tais como parques de estacionamento ou estradas são boas fontes de térmicas; de qualquer forma o pavimento é preto e absorve quantidades enormes de energia, normalmente não funciona muito bem pois não existe nada que retenha o ar no local; se virmos as aves a sobrevoar estes locais, elas normalmente enrolam em círculos muito apertados e ganham muita altitude. Incrivelmente, um parque de estacionamento repleto de carros funciona muito melhor do que um vazio, pois os carros retêm melhor o ar.

Campos semeados, secos e com desníveis costumam funcionar sempre melhor do que campos secos e planos. Isto deve-se ao fato de que estes terrenos inclinados por vezes funcionam como gatilhos, protegendo bolsas de ar do efeito do vento, permitindo que eles evoluam e se materializem em térmicas. Ao voarmos em montanha devemos procurar as encostas que estiveram expostas ao sol por maior período de tempo ao longo do dia.

Encostas orientadas a Sudoeste, localizadas em montanhas, devem fornecer térmicas contínuas e fortes a partir do meio-dia até ao fim da tarde, encostas viradas a este e oeste apenas funcionam bem de manhã e à tarde respectivamente.

O “anti-gatilho” é obviamente um lago. Frio, refletivo, úmido e normalmente ventoso. Quase nunca encontraremos térmicas sobre lagos e quando as encontramos elas não são frequentemente originadas pelo lago. Uma exceção pode suceder ao fim da tarde, quando as águas relativamente aquecidas liberam o calor. Transições sobre lagos ao fim da tarde permitem não perder muita altitude.

Gatilhos passivos (e pontos de liberação)

As térmicas possuem uma espécie de tensão à superfície, e em consequência movimentam-se ao longo do solo antes de se libertarem. O ponto onde a térmica se liberta é denominado de gatilho passivo. O gatilho passivo mais comum é o topo de uma montanha abrupta; por cima destes locais podemos encontrar frequentemente uma nuvem ao longo do dia, desde o nascer do sol até ao anoitecer, mesmo quando sol se movimenta de Leste para Oeste. Em primeiro lugar as encostas viradas a Leste aquecem e libertam as térmicas, em seguida as encostas viradas a Sudeste, em seguida as viradas a Sul, finalizando com as viradas a Oeste ao fim do dia. De qualquer forma as térmicas convergem para os mesmos gatilhos passivos.

Pensem em termos das térmicas comuns no seu local de voo habitual; o que está realmente a acontecer ao longo do dia enquanto o sol “roda”?

Se estivermos a voar a uma altitude elevada, podemos voar direitos ao gatilho passivo no topo do monte, mas se estivermos baixos temos de voar para o lado da montanha exposta ao sol e ai tentar subir.

As encostas funcionam da mesma forma, com convergências a aparecerem quando ambos os lados liberam térmicas em simultâneo.

Quando voamos em montanha devemos procurar gatilhos passivos em locais que julgamos que se possam formar bolsas de ar quente que possam ser libertadas; locais tais como encostas protegidas e “venturis” (onde o vento tende a afunilar) funcionam bastante bem. Duas ou três encostas juntas são melhores do que apenas uma, cada uma das encostas aumenta a possibilidade de encontrar o gatilho certo.

Gatilhos passivos podem ser de tamanho muito reduzido, quando voamos em planície. Por exemplo, uma estrada localizada na borda num campo seco de cultivo de cereais que possua uma vala de separação entre a estrada e o campo poderá funcionar como gatilho passivo.

Apenas uma aresta de um campo seco contrastando com um campo mais verde e com vegetação pode ser suficiente para libertar o ar quente em forma de térmicas; Invariavelmente podemos encontrar as melhores térmicas nos cantos opostos à direção do vento, em grandes campos secos. Um grupo de casas, ou uma casa localizada isoladamente em locais que quebrem a monotonia do terreno plano, usualmente podem funcionar como gatilhos passivos, libertando as térmicas do solo.

Grandes rochas são consideradas normalmente como bons gatilhos passivos, pois tendem a contrariar a pressão na superfície e a disparar térmicas fortes e turbulentas, permitindo também que grandes quantidades de bolsas de ar se libertem do solo.

Finalmente, os contrastes nas temperaturas das diferentes superfícies, podem funcionar também como gatilhos passivos. É usual encontrar térmicas na junção de duas superfícies diferentes; grandes extensões de campos secos que terminam num grande lago, conduzem normalmente a uma térmica fiável na fronteira entre ambos (se o vento vem da direção dos campos, esta térmica poderá atravessar sobre o lago). De qualquer forma, terrenos molhados e lagos, normalmente acabam com toda atividade na sua área adjacente, especialmente na face oposta ao vento.

Gatilhos Ativos

Os gatilhos ativos são considerados aqueles que se movimentam. Por exemplo, um trator a trabalhar num campo de trigo, será normalmente uma fonte de libertação de térmicas. Os carros a circularem numa estrada junto a grandes campos secos podem também atuar como gatilhos. Qualquer tipo de movimento, quer seja de pessoas, equipamentos agrícolas, carros até mesmo o pouso de um outro piloto podem contribuir para a libertação de térmicas. Quantas vezes já pousamos em campos e em seguida vimos alguém enroscar por cima desse local?

Acredita-se que a sombra das nuvens por vezes atua como um gatilho ativo; em alguns locais de voo podemos constatar que a passagem da sombra da nuvem produz “dust devils” (redemoinho de vento, quando há pouco vento predominante )à medida que esta avança ao longo do solo, atuando por vezes como uma frente fria (em tamanho miniatura), levantando o ar quente para cima. É apenas uma teoria que apenas parece funcionar esporadicamente.

Como aplicar todas estas teorias

Em determinados dias as térmicas atingem uma certa altitude antes de pararem, uma distância entre o solo e a base da nuvem ou teto do dia. Considera-se tudo o que seja inferior a metade desta distância “baixo”, e tudo acima dela “alto”. Este artigo aborda a tomada de decisões enquanto nos encontramos nas zonas “baixas”. Quando estamos baixos devemos dirigir-nos para os gatilho expostos por mais tempo ao longo do dia aos raios solares. Devemos ser muito cuidadosos ao voarmos por baixo de áreas cobertas por sombras das nuvens, pois quando estamos baixos é muito raro subir na sombra de uma nuvem. Analisem os gatilho em função dos potenciais gatilhos; zonas abrigadas do vento, junto a uma encosta com uma nuvem por cima imediatamente por cima são perfeitas. Estamos no local errados, quando constatarmos que estamos na sombra de uma montanha e neste caso teremos de procurar rapidamente o sol. É necessário fazermos um esforço em voo para tentar identificar quais as zonas onde poderão existir mais combinações de gatilhos / coletores quanto possível. Por vezes quando estamos baixos e encontramos uma zona de “zeros” (mantemos a altitude) convém parar e ficar nos zeros até que se liberte uma térmica deste local. Claro que se tivermos outras referências visuais, com por exemplo uma águia a subir muito por cima de um trator, as coisas simplificam-se. Por norma, depois de atingir o topo de uma térmica e quando partimos em transição, não nos devemos preocupar com as térmicas fracas que encontramos logo a seguir. Devemos apenas parar para enroscar em térmicas consistentes logo que estejamos numa zona, considerada por nós como sendo uma zona baixa.

É importante compreender que as ascendentes e descendentes geralmente balançam-se simultaneamente, especialmente em áreas relativamente pequenas. Se subirmos a 5 metros por segundo, devemos esperar também encontrar descendentes de 5 metros por segundo quando largarmos a térmica. Se as térmicas forem largas, esperem sempre grandes zonas de descendentes. Se nos encontrarmos numa zona de descendente violenta, possivelmente nas imediações encontraremos uma térmica bastante forte. Nesta altura devemos questionar-nos sobre onde estará o gatilho e o gatilho e atacar (dirigirmos-nos rapidamente para este local). Os gatilho têm a tendência de atrair ar para dentro deles na altura que se desprendem do solo (pense como uma ponta de estalactite que atrai a gota dágua); porventura podemos constatar um aumento da nossa velocidade solo ao aproximarmo-nos de uma térmica. A asa por vezes avança alguns graus, pois o ar acelera em direção da térmica e o nosso corpo (mais pesado) sofre o efeito do arrasto produzido. Outras asas atrasam-se ao atingirem térmicas fortes, mas contudo mantêm-se com bastante pressão (podemos senti-lo nos comandos). Rajadas de vento ou turbulência podem fazer com que a asa também se atrase em relação ao piloto, mas a pressão neste caso não será tão grande dentro da asa. Ao sentirmos a pressão nos freios podemos saber se apenas encontramos uma rajada de vento ou se efetivamente estamos a entrar numa térmica. Se a asa estiver com mais pressão, então encontramos uma térmica. Sem pressão nos freios não podemos ter entrado numa térmica. As novas asas (a partir de 1999) ou asas com performances superiores, normalmente avançam para a frente ao encontrarem uma térmica, independentemente da força da térmica, a sensação de pressão nos comandos/asa é idêntica.

Para terminar convém lembrar que o vento quebra as térmicas; se estivermos relativamente baixos a caminho de um gatilho este fato não tem grande importância, mas quanto mais altos estivermos, maior será a deriva que teremos de considerar para encontrarmos um gatilho e interceptarmos uma térmica em ascensão.

O pressupostos anteriores servem apenas como referências e não funcionam em todas as situações. Convém que cada piloto faça uma analise objectiva de cada voo, analisando as opções certas ou erradas que tomou. Os pilotos experientes criam a sua “sorte” no que respeita a encontrar térmicas consistentes. Por isso tentem desenvolver o vosso próprio sistema, pois é esse que realmente vos interessa!

Veja a continuação em Meteorologia – Capítulo 7

Créditos: Federação Portuguesa de Voo Livre

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