Comportamento das Térmicas

20 julho 2012   //   Artigos

Para entender o comportamento das térmicas não basta só entender o seu princípio de funcionamento, é necessário integrar esse conhecimento com a atmosfera em que se deseja voar. Compreender as diferenças entre voar com vento forte, vento fraco, em regiões planas (flats), regiões montanhosas, voo com formação de cumulos ou voo no completo azul, é o diferencial do grande piloto e o desejo de muitos, para isso a ferramenta mais importante é o conhecimento sobre o comportamento das térmicas.

Devido a sua natureza turbulenta e variável, as térmicas são o grande desafio nos voos de distância. Vou abordar os casos mais comuns em que as ascendentes térmicas se organizam, procurando exemplificar facilitando o entendimento.

Nos dias clássicos de voo, onde o céu fica tomado de cumulos bem organizados é fácil deduzirmos gatilhos, fontes térmicas e assim encontrarmos as numerosas térmicas que estarão a nossa disposição.

Em um sítio de voo temos as ferramentas para deduzirmos tais fenômenos, mas já perceberam que isso também ocorre nos oceanos e em desertos, onde haveriam gatilhos em tais locais, regiões planas e uniformes apresentando formação de nuvens?

Estudiosos investigaram esses casos e chegaram a conclusão que uma região plana ao ser aquecida pelo sol, libera calor para atmosfera, semelhante a uma panela ao fogo com água fervendo. Os estudos apontaram um outro fator muito interessante, nessas regiões as térmicas desprendidas se organizavam sistematicamente como hexágonos, polígono de seis lados iguais, com cerca de 6 Km cada lado, logicamente apresentando variações de acordo com a intensidade do vento e a viscosidade do ar. A essa teoria foi atribuído o nome de Teoria do Hexágono. Essa teoria é muito difundida e explorada entre os pilotos de planadores e asa delta, muito pouco divulgada entre pilotos de parapente, todavia se usada corretamente apresenta excelentes resultados.

A teoria do hexágono será o meu primeiro exemplo do comportamento das térmicas. Ela deverá ser aplicada em regiões planas com pouco contraste de solo, inicialmente procure usar a teoria em dias de pouco vento, pois com a presença de vento a teoria diz que os lados alinhados ao vento irão aumentar o seu comprimento formando os Cloud Streets, os vértices identificam a posição dos cumulos e o centro os buracos azuis (descendentes), quando voando nessas regiões não se confunda achando que voar no azul é melhor pois o sol atinge diretamente o solo, lembre-se que uma térmica ao realizar o seu trajeto ascendente, a massa de ar circundante será descendente, nesse caso os buracos azuis. Procure cruzar os buracos azuis da forma mais rápida possível, tentando alcançar outro lado do hexágono, caso seja possível contorne-os.

Como regra geral os raios solares aquecem a terra e essa aquece o ar ao seu redor, cada corpo possui uma capacidade específica de reter calor, o ar circundante acaba por aquecer-se mais rapidamente ou vagarosamente, dependendo desse calor específico. Sabemos que o ar quente é mais leve que o ar frio e que o ar úmido é até 1.9% mais leve que o ar seco. Assim, quando uma massa de ar fica mais leve que outra, acaba por se desprender causando turbulência, pois o ar mais pesado passa a ocupar o lugar da massa de ar que subiu. Quando sobe, a térmica vai se expandindo e continuará a subir enquanto a sua densidade for menor que a densidade do ar em volta, sua razão de ascensão será maior quanto mais leve ela for. Esse processo de formação de térmica é o mais elementar, conhecido como “Formação de Bolhas“. Numa situação ideal, em que o sol irradie diretamente uma região propícia a formação de termais, seriam necessários de 20 a 25 minutos para que fossem geradas as primeiras térmicas potenciais do dia. Algo próximo a esse exemplo podemos encontrar em áreas de altíssimo potencial térmico como em alguns desertos, em Quixadá, Aar (África do Sul) e outros.

Ao explorar as térmicas em forma de bolhas temos que ter especial atenção, pois o aquecimento do ar por si só, não garante a formação de uma térmica, é necessário um gatilho. Nesse momento é que surge o “pulo do gato”. Quando voando com pouco vento, dificilmente o vento agirá como gatilho e desta forma a bolha vai sendo arrastada paralelamente ao solo até que encontre um gatilho, na maioria das vezes longe da área onde ocorreu o aquecimento. Assim, quando voando térmicas em forma de bolhas com pouco vento, esteja mais atento aos gatilhos em detrimento aos locais de aquecimento. Quando houver vento, na maior parte das vezes o próprio age como gatilho liberando as térmicas próximo a área onde ocorreu o aquecimento.

Em regiões de grandes contrastes, muitas vezes o gatilho não se faz necessário devido as diferenças de temperaturas, nesses casos as térmicas são disparadas do mesmo local onde ocorreu o aquecimento e se o fluxo de térmicas for contínuo teremos as Térmicas em Forma de Colunas, que podem atingir a base de uma nuvem, sempre conectadas ao solo, esse tipo de térmica é mais resistente a deriva do vento, uma vez que estão conectadas ao solo.

Uma térmica ao ser liberada poderá causar reações em sua área adjacente e por consequência liberar outros termais menores, chamados de Térmicas com Múltiplos Centros ou Fragmentos de Térmicas, nesses casos os termais menores tendem a derivar com o vento na direção do maior termal, reunindo-se todos os fragmentos junto a térmica principal. As térmicas com múltiplos centros apresentam duas fases distintas, a primeira fase é a fase da baixa altura, onde os núcleos estão derivando em direção a térmica principal e a fase da média altura onde todos os núcleos se encontram e ascendem com boa taxa de subida. Aproveitar-se dessa situação, principalmente durante a primeira fase, exige do piloto boa técnica de enroscada, pois estará dentro de um pequeno termal, com deriva significativa e a baixa altura.

As térmicas podem apresentar-se em vários formatos, elipse, ondas, bolhas, colunas , múltiplos centro e outros, toda essa teoria irá nos auxiliar a formar um padrão mental enquanto enroscamos uma térmica, evite ao máximo acomodar-se com a sua taxa de subida atual, mantenha a busca constante pelo miolo da termal. As térmicas possuem diferentes diâmetros, entretanto nosso velame aproveita com maior rendimento térmicas com diâmetro superior a 30 metros, que a uma velocidade de 36 km/h = 10 m/s , levaríamos 3 segundos para cruzá-las. Os números não são uma regra, são apenas parâmetros para facilitar o entendimento.

Acordar pela manhã num fim de semana ensolarado e ver o céu tomado de cumulos bem formados a grande altura, é o retrato da mais pura felicidade para todos os praticantes do voo livre. Nem sempre essa será a nossa realidade, muitos dias de sol se passam sem a formação de uma só nuvem e muitos pilotos tem receio de fazer voos de distância sem a presença de nuvens. A formação de nuvem convectiva está associada a temperatura do ponto de orvalho, temperatura na qual o ar aquecido se condensa, se a temperatura do ar estiver muito distante da temperatura do ponto de orvalho, esse será um dia propício a não formação de nuvens, contudo ainda existirão as térmicas e essas ainda funcionarão sobre o mesmo princípio. Em dias sem nuvens devemos direcionar a nossa rota, de modo a passar sobre regiões com terrenos mais propícios a formação de térmicas e gatilhos, ou seja, nossa navegação será feita com referência no solo. Exercite bem esse tipo de voo, é o voo onde acumulamos mais conhecimento, pois é necessário acreditar naquilo em que não estamos vendo.

Por Alexandre Malcher

Fonte: Voo News

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